Haverá uma bolha no mercado da cerveja artesanal?

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Nos últimos meses surgiram vários artigos que abordam a possibilidade de existir uma espécie de bolha no mercado da cerveja artesanal dos Estados Unidos. Trata-se do maior mercado artesanal e o país onde teve início este movimento que se tornou um fenómeno global. É o “paciente zero” e por isso acho pertinente observar o que por lá acontece.

Alguns pessimistas defendem que apesar do aumento nas vendas de cerveja artesanal no país e dos sucessivos ganhos de cota de mercado em relação às macro-cervejarias, há demasiadas cervejarias a serem abertas todos os anos. Temem que o mercado fique saturado e que isso cause a falência de uma boa parte dos negócios. Há indícios de que o número de falências anuais estará a aumentar e isso tem reforçado esta perspectiva mais negativa.

Por outro lado há os que contestam este pessimismo e fazem uso de outros dados estatísticos para demonstrar que o mercado está muito longe da saturação. Um argumento frequente é de que o número de cervejarias per capita actual no país é ainda bastante inferior ao observado durante o séc. XIX. Refutam também a ideia de uma saturação global do mercado com o argumento de que muitas marcas são quase exclusivamente locais, estando por vezes disponíveis apenas nas imediações do local de produção ou ao nível da cidade ou região.

Pessoalmente acredito que o mercado norte-americano está muito longe da saturação, pelo menos em termos globais. Estou convencido de que a maioria das falências deve-se essencialmente a problemas comuns a qualquer negócio, tais como falhas de gestão, erros no estudo ou abordagem ao mercado e baixa qualidade do produto. Considero especialmente importante a questão da qualidade do produto porque tenho lido cada vez mais artigos que denunciam cerveja artesanal de má qualidade e inconsistente.

Qualquer pessoa que faça cerveja em casa, mesmo com um simples kit já pré-preparado, rapidamente sonha em dar o salto para a produção comercial. A crise e o desemprego também ajudam a isso. É uma aspiração legítima, não contesto, mas para além do inevitável investimento monetário, também é necessário investir no domínio do processo de fabrico e especialmente na “arte” envolvida. Isso normalmente requer vários anos de experiência e uma grande dose de estudo e dedicação. É muito fácil fazer cerveja, mas pode ser muito difícil fazer boa cerveja de forma consistente. Algumas más experiências de clientes podem condenar um produtor, especialmente se depender de um mercado local limitado, como acontece em grande parte dos casos. Como se não bastasse, pode também criar em alguns consumidores desconfiança sobre os méritos da cerveja artesanal e prejudicar a afirmação de outras marcas.

Observo o caso de Portugal com muita atenção, obviamente. É o meu país e está a dar os primeiros passos na sua “revolução da cerveja”. Espero que os produtores portugueses com aspirações comerciais estejam concentrados na qualidade da sua cerveja. Há muitos desafios pela frente: é um mercado ainda muito recente, muito pequeno e onde a cerveja dita “industrial” é consideravelmente barata em comparação com muitos outros países. Acredito que apenas um produto com muita qualidade poderá convencer a maioria dos consumidores a pagar o preço necessariamente superior de uma cerveja artesanal.

Resta-me dizer que estou convicto que neste momento as únicas bolhas com que nos devemos realmente preocupar são as que se devem formar correctamente dentro da cerveja. A qualidade sim, é uma preocupação que eu acho que deve estar presente na mente dos produtores e dela poderá depender a sua sobrevivência e o crescimento saudável deste novo mercado. Mas é apenas a minha modesta opinião.

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