Ninkasi, a deusa da Cerveja

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Os Sumérios foram uma antiga civilização que existiu provavelmente entre os anos 5000 e 2000 a.C na região onde hoje se encontra o Iraque. São-lhes atribuídos inventos de grande importância como a roda, a escrita cuneiforme, as primeiras noções de heliocentrismo, a domesticação de animais e… a Cerveja! Há uma grande discussão sobre a origem da cerveja e há possibilidade de ser ainda mais antiga e originária da região da actual China, mas não há dúvidas de que a cerveja existia nesta sociedade e que tinha uma grande importância.

documento sumério e Hino a Ninkasi

Esquerda: placa suméria de à volta de 3000 a.C. que regista a atribuição de porções de cerveja a trabalhadores sumérios. Direita: representação de uma placa com o “Hino a Ninkasi”
(Fonte: tablematters.com)

Na visão mitológica dos Sumérios, Enki era o deus do Abzu, das águas doces (dos rios, canais, da chuva). A água tinha um significado também relacionado com o conhecimento ou sabedoria. Por este motivo Enki era também conhecido como o deus do conhecimento e da sabedoria, portador dos segredos da vida e da morte. A sua mulher era a sua irmã Ninti, a Deusa da Vida.

Representação de Ninkasi (créditos: Smithsonian)

Representação de Ninkasi
(créditos: Smithsonian)

Ninkasi, filha de Enki e Ninti, foi uma das oito crianças criadas por Ninhursag – uma espécie de deusa mãe, de grande relevo – para curar cada uma as oito feridas que Enki recebera. Nasceu da “água fresca cintilante” para “saciar o desejo” e “satisfazer o coração”. Era a deusa do álcool, mais concretamente da cerveja, e seria responsável pela produção da bebida. Tinha por missão a cura da zona das costelas. Enki tinha comido flores proibidas e por isso tinha sido amaldiçoado por Ninhursag, que mais tarde seria persuadida por outros deuses a curá-lo. Curiosamente, alguns estudiosos  acreditam que esta história serviu de base para a do Livro de Génesis, em que Eva é criada de uma costela de Adão. Há também outras histórias na bíblia que parecem ter tido inspiração em mitologia de outros povos.

A linguagem escrita suméria, tipicamente encontrada em placas de argila, é das escritas humanas mais antigas de que há registo. Desde inícios de 1800 que têm sido feitas traduções de vários documentos e entre eles foi encontrado um poema intitulado “Hino a Ninkasi”. O texto, traduzido pela Universidade de Oxford, revelou ser também uma receita de cerveja. É uma das receitas mais antigas de que há registo. Este texto é muito conhecido no mundo da cerveja e serviu de inspiração para criar cervejas e marcas.

Segue-se uma tradução feita por mim, baseada numa versão em inglês.

Hino a Ninkasi

Nascida da água corrente (…)
Delicadamente cuidada por Ninhursag
Nascida da água corrente (…)
Delicadamente cuidada por Ninhursag

Tendo fundado a tua cidade pelo lago sagrado,
Ela terminou as suas grandes muralhas por ti,
Ninkasi, tendo fundado a tua cidade pelo lago sagrado,
Ela terminou as suas grandes muralhas por ti.

O Teu pai é Enki, Senhor Nidimmud,
A Tua mãe é Ninti, a rainha do lago sagrado,
Ninkasi, o Teu pai é Enki, Senhor Nidimmud,
A Tua mãe é Ninti, a rainha do lago sagrado.

Tu és a única que manuseia a massa,
[e] com uma grande pá,
Misturando numa cova o bappir com ervas aromáticas doces,
Ninkasi, Tu és a única que manuseia
a massa [e] com uma grande pá,
Misturando numa cova, o bappir com [tâmaras ou] mel.

Tu é a única que coze o bappir
no grande forno,
Coloca em ordem as pilhas de sementes descascadas,
Ninkasi, Tu és a única que coze
o bappir no grande forno,
Coloca em ordem as pilhas de sementes descascadas,

Tu és a única que rega o malte
colocado no chão,
Os cães fidalgos mantém à distância até os potentados,
Ninkasi, Tue és a única que rega o malte
colocado no chão,
Os cães fidalgos mantém à distância até os potentados.

Tu és a única que embebe o malte num cântaro
As ondas sobem, as ondas caem.
Ninkasi, Tu és a única que embebe
o malte num cântaro
As ondas sobem, as ondas caem.

Tu és a única que espalha a pasta cozinhada
em largas esteiras de palha,
O arrefecimento acontece.
Ninkasi, Tu és a única que espalha
a pasta cozinhada em largas esteiras de palha,
O arrefecimento acontece.

Tu és a única que segura com ambas as mãos
o magnífico líquido doce,
Fermentando[-o] com mel e vinho
(Tu, o doce líquido para o recipiente)
Ninkasi, (…)
(Tu, o doce líquido para o recipiente).

A cuba filtradora, que faz
um som agradável,
Tu colocas apropriadamente [no topo de]
num grande barril colector.
Ninkasi, a cuba filtradora,
que faz um som agradável,
Tu colocas apropriadamente [no topo de]
num grande barril colector.

Quando tu despejas a cerveja filtrada
do barril colector,
é como os barulhos dos cursos
do Tigris e do Euphrates.
Ninkasi, Tu és a única que despeja
a cerveja filtrada do barril colector,
é como os barulhos dos cursos
do Tigris e do Euphrates

 

 

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